S.E.F. (Suplício de Estrangeiros e Fronteiras)

Album cover art for "S.E.F. (Suplício de Estrangeiros e Fronteiras)" by Chullage

Chullage - Rap, Portugal

S.E.F. (Suplício de Estrangeiros e Fronteiras)

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Duration: 7:24

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[Letra de "S.E.F. (Supl�cio de Estrangeiros e Fronteiras)"] [Verso 1] Ele era um retornado, chamavam-lhe senhor Henrique No tempo colonial, ele tinha 'tado em Mo�ambique L� n�o era rico, mas tinha uma vida boa S� que, depois da independ�ncia, voltou p'a Lisboa � toa, come�ou uma vida nova como pedreiro Mas pouco tempo passou e ele j� era empreiteiro Agora andava de capacete branco e gravata Tinha posto graveto no banco �s custas de m�o-de-obra barata Aqui n�o tinha [?] for�ados a fazer-lhe o trabalho Mas fazia algo parecido com esses pretos do c... Explorava imigrantes, na maioria budjurras Para ele continuavam a ser ind�genas, pessoas burras Os anos foram passando, foram vindo mais imigrantes E a cada um que vinha pagava menos que o que 'tava antes Muitos tinham, mas muitos n�o tinham pap�is E a esses pagava menos e chantageava com as leis [Verso 2] Ele era um cabo-verdiano, chamavam-lhe Silvino Um dia chegou � obra passou-se e quase puxou o xino N�o recebia h� 2 meses, a vida tinha dado o pino Ele tinha uma casa e tr�s filhos no ensino N�o recebia t�o mal assim h� mais de quinze anos Para ele, a culpa era desses filhos da p... dos ucranianos Um dia pedia 50, agora eles pediam 20 Patr�o disse, se n�o quisesse, p'a n�o vir no dia seguinte Mas j� n�o havia est�dios, estradas, metro p'a construir O trabalho estava mau, ele tinha que engolir Frustrado, chegava a casa, dava um "boa noite" rouco Os filhos corriam para ele, dava-lhes um abra�o de pouco Pousava o saco, sentava e bebia at� ficar mouco A mulher fazia tudo o que ele queria Mas para ele era sempre pouco "Maria, porra, despacha-te j� que um gajo t� com fome Acaba com essa brincadeira de chegar na casa ao mesmo tempo que o homem!" E um dia, enquanto discutia, escapou-lhe a m�o e deu-lhe um soco Ele disse que n�o se repetia, por isso ela n�o lhe deu troco Mas de repente no outro dia j� n�o foi s� um soco Repetiu-se no dia-a-dia, ela vivia num sufoco [Verso 3] Maria, alta, linda, inteligente, crioula Por ser mulher, os pais n�o lhe tinham posto na escola Pairavam fantasmas das fomes de '40 e '50 E a guerra colonial estava na fase mais violenta Al�m disso n�o chovia, toda a gente 'tava de fuga E um dia tamb�m Maria apanhou um barco p'a Tuga Primeiro trabalhou interna, depois passou a mulher-a-dias Pelo meio, criou os filhos da patroa como se fossem as suas crias O marido era macho, n�o queria que ela trabalhasse Mas ele n�o recebia bem, era preciso que ela ajudasse Sa�a de madrugada pr'o hospital onde limpava � tarde, ia pr'a uma resid�ncia, onde engomava Tratava dos filhos da patroa, limpava e cozinhava � noite, chegava a casa, limpava e cozinhava E ainda pegava nos filhos, deitava e tratava Mas ela sabia, do pouco tempo que com eles passava Pedia a Deus para olhar para eles enquanto ela n�o estava Principalmente para o mais velho, que a rebeldia j� se notava [Verso 4] Bruno, era o que eles chamavam segunda gera��o Nascido em Portugal, verdiano no cart�o Vivia nuns blocos de pedra l� p'o meio dum descampado Chamava-se "realojamento", mas ele sentia-se desalojado Os pais poupavam p'a fazer uma casa na ilha P'ra ir uma vez por ano fazer bonito pr'a fam�lia Por causa da merda do m�s, andavam a poupar um ano inteiro E quando ele pedia dinheiro p'os t�nis, eles diziam "Ca ta dja dizer que bu na tem dinheiro" Crescera a vontade de ser mandado para a sua terra Agora achava-se guerrilheiro, vida de ghetto era a sua guerra Ver os pais matarem-se nunca tinha o me'mo que um pula Via os thugs orientarem-se, muita paka, muita moolah Enquanto estava na escola ouvia falar de Vascos da Gama Outros estavam na rua a orientar cribs, cachuchos, damas Pr'a isso n�o era preciso diploma, era preciso cortar umas gramas Via brothers que tinham estudado sem emprego, a viver dramas N�o era futebolista (n�o), e muito menos artista (n�o) Queria dinheiro r�pido e j� 'tava a seguir a pista Os amigos chegavam, cheios de cen�rio, sempre em altas Come�ou a parar na rua e a acumular um monte de faltas E a pouco e pouco, aquilo ia-lhe fazendo fasc�nio Dali a pouco, ele tinha as notas da escola em decl�nio Mas tinhas outras notas que eram aquelas que lhes interessavam ("� do meu s�cio, m�e!") mentia � m�e quando ela lhe perguntava ("Onde � que foste arranjar esse dinheiro?"), de onde � que ele vinha Mas uma madrugada meteram-lhe a porta � frente sem lhe tocar na campainha Passados tr�s meses, j� ningu�m lhe visitava S� os pais, a prima e a colega da prima de quem ele gostava Ansiava pela visita, para lhe tirarem daquela jaula Elas iam ver-lhe de surra, faltavam a uma tarde de aulas [Verso 5] Paula, menina de classe m�dia Os pais tinham-lhe criado ali, com as m�os na r�dea N�o a queriam com amigos ("freaks, estrangeiros nem paneleiros!") Diziam que ela se casaria com algu�m que tivesse dinheiro 'Tava farta dessa conversa, j� n�o tinha pachorra Eram todos iguais, ela 'tava farta dessa porra! Al�m disso, curtia bu� a pausa daqueles pretos 'Tava a acabar a anima��o, queria estagiar naqueles ghettos Curtia bu� das tran�as, do cal�o e do sotaque Queria aprender kizomba, s� n�o curtia do Tupac E tamb�m n�o entendia o porqu� de tanta raiva Ela tamb�m cagava nas conversas do professor Hermano Saraiva E, apesar de tudo, ela tamb�m se sentia oprimida � que tinha guardado um segredo durante toda a sua vida Ela n�o se sentia rapariga, mas sim um rapaz E n�o era do Bruno, mas da prima dele que ela andava atr�s Essas not�cias l� em casa seriam uma coisa bomb�stica Ainda por cima o irm�o tinha engra�ado com uma cruz su�stica Em casa era s� guerras, j� n�o havia sossego A m�e tinha adoecido e o pai ia perder o emprego [Verso 6] Chamava-se Manuel, tinha crescido no interior Mas cedo veio p'a cidade � procura de algo mais promissor A vida de agricultor h� muito j� n�o rendia Arranjou um trabalho na margem sul, na metalurgia Os irm�os tinham fugido para Fran�a, na altura do ultramar Juntavam-se em agosto na terra, a festa familiar E todos 'tavam preocupados com o rumo de Portugal Ele comentava o seguinte quando via o telejornal: ("Isto agora � s� pretalhada, brasileiros e moldavos Roubam-nos o trabalho, dizem que s�o tratados como escravos Os filhos n�o se integram e fazem o que lhes apetece � o carjacking, � a droga, todos os dias acontece V�m para c�, mas s� convivem entre eles S� falam a l�ngua deles, s� comem a comida deles 'Tou farto deles pelos cabelos!"), dizia ele chateado Mas um dia chegou ao trabalho e o port�o 'tava fechado A pol�cia estava na porta e o patr�o 'tava escoltado Dizia que tinham aberto fal�ncia, que o pessoal estava dispensado Mas tinham ido para outro lado, somente para outro lado Onde a m�o-de-obra era mais baixa, o sindicato gritava palavras de ordem por detr�s de uma faixa: [Skit] Unidade � que � preciso, unidade popular! Unidade � que � preciso, unidade popular! V�o ombro com ombro, v�o de bra�o dado S�o trabalhadores, est�o do mesmo lado [Verso 6 - continua��o] Mas a coisa subiu de tom, e a pol�cia agrediu um trabalhador E a� ele percebeu que a pol�cia n�o era s� p'os gajos de cor 6 meses sem trabalho, perdera a esperan�a P�s a casa a alugar, tentou a sorte em Fran�a E agora em Champigny, s� vivia entre portugueses Falava portugu�s, ia ao caf� dos portugueses "�Bacalau, ma�on, femme de m�nage", diziam os franceses Estava em Lisboa h� 15 dias para tratar do aluguer O telefone tocou, do outro lado ouviu-se uma mulher ("Al�? Estou ligando por causa da casa") - "Foda-se, � preciso ter azar Com tanta gente, � s� brasileiros a ligar Alugam uns, chegam de encontro l� uns oito Depois s� querem festas, fazem muito barulho � noite Ainda por cima essas gajas andam por a� a atacar Estou? Sim, sim, pode passar" [Verso 7] Chamava-se Adriana e tinha vindo do Paran� Com visto de turismo, mas ficara por c� Trabalhava no Colombo, entre as mesas e o desporto Todos os clientes olhavam para ela como se fosse uma estrela porno [Outro] ...m�o-de-obra mais barata e determinante para elevar O crescimento econ�mico... Os primeiros a conhecer a impiedade... Os problemas familiares... S�o 70 334 pessoas est�o desempregadas... 40 mil pessoas sem trabalho... Trabalhadores contratados, sem emprego...

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  • Quasi OG (Lutadoriz Reg)
  • Chullage